“Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
— Florbela Espanca,
“Saudades”
Se o lixeiro passar hoje, espero que leia isso.
Doce Clara,
Tuas lágrimas completam aniversário hoje. Eu sei, minha querida, já fazem muitos anos. Olho pro céu outonizado e lembro do nosso amor. Não são as nuvens em forma de lembranças, tampouco são as cores e os pássaros que o decoram. É aquele avião frio e melancólico que o parte ao meio. Forte, imponente, veloz… Mas incapaz de dar marcha ré. E te deixei partir até onde fosse seguro pousar, longe do meu alcance. Meu paraquedas não abriu, Clara. Me espatifei na loucura de te abandonar.
O relógio grita cada vez mais alto. Fechar os olhos tornou-se insuportável quando nem mesmo a chama da vela acesa no meio da madrugada me permite criar poesias adormecidas. Eu sequei, dogmatizei o meu próprio título de criatura ordinária e passei a ser servo do meu próprio falecimento romântico.
Tu fostes cruel, Clara. Fostes cruel com tua beleza, teu cândido olhar, tuas botas de ferro que fui obrigado a calçar e hoje me impede de continuar a vida sem você. As memórias quase perdidas me fascinam, me enlouquecem. Ainda lembro das vezes que deitei no chão do meu quarto e pus a questionar porque as tuas lágrimas não saíam marrons, exatamente da cor dos teus olhos que se desmanchavam. Você me fez vivo para logo em seguida, matar-me com a forca que eu mesmo ajudei a amarrar.
Virei estrangeiro da minha própria descoberta. Do que adiantou-me o título de bravo, forte, dono de si, se no final das contas, morri com o título de leão ou realeza? Não bastou-me o luxo, as mordomias de amar escondido. Eu quis gritar o teu nome para desconhecidos, quis rasgar o meu coração para que tu pudesses viver entre os meus pesadelos reais.
As rosas escondidas por entre os espaços do teu nome murcharam, e as lágrimas que irrigaram todo o meu oceano secaram. Hoje sobrevivo na carcaça de um homem que encobriu teus beijos com uma barba mal feita, que maquiou os sentimentos com uma estrela no peito. Hoje penso que nada valeu a pena, embora eu saiba que sou mais feliz sem você.
Não me entenda mal, minha adorável menina. Tu me fazes falta, mas a felicidade não tem a ver com espaços vazios. Pode parecer loucura, mas que a loucura seja colocada à mesa para ser dividida entre os apaixonados ou desapaixonados. Ambos possuem o mesmo par de óculos desajustado e um buquê de rosas murchas na mão. Eu sou feliz, e serei ainda mais feliz daqui para alguns anos.
Felicidade é mentira, falta de sentido. O concreto tornou-se um peso insuportável, e optei por ser feliz. Optei por trazer os abutres para se banquetearem com as migalhas que deixei no caminho de volta para teus braços. Optei por esquecer, sem que o esquecimento tenha optado por mim. Desisti de te amar, sem que o amor desistisse de vencer.
É chegado o dia do nosso adeus definitivo. Que um dia a gente se cruze pelos caminhos tortos e curtos da eternidade, meu amor. Que um dia tu desabroche e solte teu perfume de rosa até mim, para que eu não tenha que pedir ao vento para levar minhas tristezas até você. Eu te quero sorrindo, Clara. Eu te quis mal, mas te quero sempre bem.
Até o próximo fim. (Cinzentos)
1 week ago with 188 notes
“Mas, Ana, tenho tido vontade de te falar tanta coisa, de perder todo o tempo e os anos que ainda me restam em troca de um encontro dos meus olhos com os teus. De fato, tu deves me achar é um homem muito estranho ou, talvez, nem considere mais que homem eu seja, diante da falta de coragem que sufoca meu peito. Mas, Ana, entenda que nunca senti nada assim e seja compreensível com quem descobriu o tamanho do próprio coração há tão pouco tempo. Quem diria que gente confusa com os pingos tão misturados quantos os meus teria espaço no âmago para represar tanto amor? Quem, quem diria, Ana? Quem apostaria que eu brincaria com o teu riso e, no fim, seria capaz de jurar poder sangrar por ele? Calculei tudo errado, meu passarinho, e agora anseio pela chuva que te fará pousar perto de mim. Fui homem fraco, covarde, e jamais tive coragem para te deixar rasgar os meus disfarces, mas entenda, querida, entenda que tive mesmo medo de respirar esse amor inteiro quando vi os teus braços abertos e, então, sufoquei tudo, jurei que até os meus sentimentos mais sinceros morreriam asfixiados. Eu realmente quis matar tudo em mim e não hesitei em tentar apagar as luzes para que todo e qualquer azul bonito pudesse ser afogado no escuro da minha própria solidão. Não foi tão estranho quando descobri que tinha feito tudo errado outra vez, já que vivi cometendo equívocos quanto à área que ocupava em mim o amor que gritava pelos teus lábios. Enquanto pude te observar de perto, deixei tudo jogado, escondido embaixo dos meus carpetes pesados, contudo, já não posso mais caminhar olhando para a estrada estreita que é tecida ao meu redor por não ser tão forte, ou por não continuar tão tolo quando já fui.
Semana passada eu sonhei contigo e com o emaranhado engraçado dos teus cabelos no vento e, hoje, não negarei mais coisa alguma, já que, depois daquilo, desisti da minha tolice e da represa que construí. Agora veja bem, Ana, tudo isso foi para te pedir perdão e sentir o teu abraço apertar meu peito novamente. — Inconcussa
“Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa –a inteira— cujo significado vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem— mas a gente mesmo, no comum não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo o falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada como o que se põe, em teatro, ara cada representador –sua parte, que antes já foi inventada, num papel… —
Guimarães Rosa -
Grande Sertão - Veredas.
“São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas… Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
—
Castro Alves
“Sou só angústia quando me olho e me encontro diluída no escuro das águas que não posso enfrentar. Daquilo que peguei para ser e não consegui, nunca tive mais nada além de imagens distantes, cujos traços não se estendem para gente de nó apertado que salta e não encontra mais de si por aí. Perdi as rédeas do meu próprio embaraço por escapar uma vez e decidir viver para fingir que, sozinha, podia me suprir nas noites de prestação de contas. Agora, sou apenas parágrafos soltos de páginas que não foram livros por serem tão mal escritas e frustrantes de ler. Não exijo a compreensão daqueles que passam por perto e não me encontram coração adentro, pois com que olhos posso acusá-los de não terem tentado sangrar para chegar aqui, quando sei que se perderam nas brechas que abri? Justamente naquelas que levam a lugar nenhum. Nunca disse que era uma questão fácil e jamais partirei marcada por um fim hipócrita enquanto as sobras do bom senso saltarem dos meus olhos. O que sobrou do egoísmo que não pude sufocar ainda fala alto, repetindo o quanto alguns deviam lamentar ao me verem distante do litoral, arrastada e corroída pela maré. Desde então, contesto e nego; ainda que as minhas palavras falhem, setencio à negação aquilo que acha que agarrar nas mãos alheias é não fazê-las sangrar. — Inconcussa
Porque eu não mereço absolvição
Perdão nenhum, Senhor.
Pelos passos dados, pelos espinhos cravados, pela exultação da cicatriz. Olha esta estrada, esta trilha cruzada, este mundo que deixo para trás: A podridão e a beleza instalaram-se a cada centímetro e é impossível a diferenciação entre o bolor e o colorido. Culpa minha. Coro meu. Com este corpo corrompido eu espalhei os odores putrefatos. Alma insana. Porte esponjado. Minhas ataduras se desfizeram com o vento e machucado algum purifica-se com meus emplastros. Cuspe, gosma, brado, berro, sopro e edificação. Da destruição. Do jardim de rosas desidratadas e esquecidas no portal do tempo. Não ergue as mãos sobre meu halo enegrecido, senhor, não desperdiça as palavras e conselhos – silenciosos, que tu insiste em murmurar-me ao pé do ouvido, na ponta do lóbulo –, não ora pela cura da minha fé na morte. Se eu fecho os olhos e creio nos bons, nos maus, nos indefinidos, nos inalcançáveis. Se eu guardo os risos para o macabro, se eu estremeço à luz, se eu me corrompo por completo e mudo de posição a cada dois dias. Incurável. Sintomática e letal, com o pé no manto da senhora cujo ceifo julga o que deve ou não mais respirar e evaporar vida – do anjo de asas caídas que guarda a passagem suave e tênue entre o vital e o foi-se-já. Não clama pela salvação que eu não anseio, que eu não tomo como ensejo para endireitar as costas, que eu não aguardo com as palmas unidas. Meus braços abrem-se a todo momento e, como com cruz, eu caminho e sobrevivo e prossigo e, vez ou outra, me inspiro a relatar a confusão que pesa nos ombros. Porque eu lambo os beiços cravejados pelo sumo lacrimal e engulo a dor, sufoco a falta de ar e aprisiono a mais concentrada aflição, puxo o gatilho contra a têmpora durante o primeiro dia da primavera e sorrio à queda da virgem flor – rosa de pétalas pretas. Perdão nenhum, senhor, porque eu sou dama de jóias e ferrugens, das lágrimas e batismos contaminados, dos beijos e abraços infecciosos, e não possuo medo de cair na cama e adoecer.
Claudia Calado
1 month ago with 15 notes
1945.
Hoje é aniversário de Aharon. Sete anos. Há dez dias atrás, às 13h47, a morte gritou. Era o alarme para levar os recém-chegados até o “banho”. Eu e mais nove diabos ficamos encarregados da vil tarefa de manipular a multidão de ossos e sangue judeu prestes a ser derramado.
A câmera de gás estava faminta. Crianças, velhos, adultos, todo tipo de carne. E no meio dos olhares perdidos, o pequeno Aharon; um anjo. Olhou-me como um carneiro olha para a faca que cortará seu pescoço. Eu senti-me imundo, mas não tão imundo quanto o cano da arma que apontava para as minhas costas e para as de meus companheiros, obrigando-me a apressar os passos e aumentar o tom de voz. O menino não largava da mão da mãe. Tão pequenino e magro que não parecia ter mais de cinco anos, tão fraco que mal conseguia andar. O segundo alarme soou e todos já estavam dentro do caixão.
Eu mesmo acionei a liberação do gás. As lágrimas que escorriam dos meus olhos misturavam-se com as lágrimas de medo do menino Aharon. Culpa. Não demorou mais que três minutos e os gritos de dor silenciaram-se. Abrimos a câmera para a retirada dos corpos. Não havia gente. Havia apenas corpos mutilados, línguas cortadas e olhos arrancados pelo impacto da morte sangrenta. Levantamos verme por verme, até ouvirmos uns gemidos fracos. Virei-me para o barulho que, naquele local onde só o vazio da tristeza podia imperar, era ensurdecedor.
- Está vivo, Caleb! Este ainda tem pulso.
Aharon estava vivo. O corpo da mãe caiu sobre ele, impedindo que o gás o atingisse. Era inacreditável. Eu e os outros levamos o pequeno para um local seguro, demos água e pão velho. Ele parecia estar bem, ainda que um tanto desnorteado. Ainda que não houvesse espaço, nós tínhamos um lema: A vida em primeiro lugar. Sabíamos que morte nos rodeava, que Aharon continuava em perigo, mas em Auschwitz nenhum coração será ignorado. Nenhuma Estrela de Davi se apagará por nossa indiferença.
Eis uma vantagem nos campos de concentração. Sua ausência nunca é notada. Somos números. Bastava um pijama listrado e Aharon seria o 67. Sua morte? Imprescindível para os alemães, mas completamente ignorável pelos próprios capatazes. Juntamos o menino com os outros trabalhadores. Ficou encarregado de tirar os pratos sujos do refeitório. Uma tarefa arriscada. Sim, eu disse arriscada. Para cada prato esquecido, um tiro na cabeça.
Cuidei daquele menino como filho. Os meus eu já havia queimado, junto com os outros 2.000 mortos. Toda noite eu dava-lhe pão e leite, ainda que fosse dormir com a barriga roncando. Contava-lhe histórias de quando eu era médico. Sim, fui médico. Hoje planto batatas, mas fui um dos melhores médicos de minha região. Tratei dos feridos quando tinha o privilégio de morar no gueto, junto com baratas e ratos. Mas não me chame de doutor. Me chame de 34.
Eram 4h30 da manhã de hoje quando me acordaram aos berros. Senti a língua voltando para o esôfago. Era minha hora de matar ou morrer. Sempre me chamaram para executar os ladrões ou infratores da fábrica. Ou simplesmente… judeus. Era o vosso crime. Corri para o pátio, o oficial me aguardava.
- Conheces esse demônio, Caleb?
Era Aharon, meu menino. Emudeci. Comandante Burkhard apontava para ele com a arma em punho.
- Pelo amor de Deus, Caleb, responda-me!
- Sim senhor, conheço. É Aharon, trabalha no refeitório da fábrica.
- Este verme bastardo manchou minha farda com borra de café. Tive a benevolência de dar-lhe apenas uma surra como punição, quando ouvi ele berrar por seu nome. O que és dele?
- Nada, senhor.
- Eu bem imaginei. Rapazinho, aproxime-se.
Aharon permaneceu estático até ouvir a segunda ordem de comando. Chorava como criança recém-nascida, mas não dava um pio. As palavras eram traiçoeiras demais. O patife acariciou-lhe a cabeça raspada e deu dois tapas camaradas em suas costas franzinas.
Burkhard sorriu como Lúcifer. Ofereceu-me a arma e a voz foi clara.
- Atire.
Empurrou Aharon para que caísse de joelhos na minha frente. Eu não poderia atirar. Eu preferiria a lançar aquela bala contra minha própria cabeça. Seria o certo a fazer… Mesmo sabendo que o corpo de Aharon cairia logo sob o meu. O menino lançou um suspiro: Frömmigkeit, bitte. (Piedade, por favor.)
- Vamos, atire! Mate-o! Estraçalhe os miolos deste verme! Vamos, estais surdo, judeu maldito? Mate-o! Antes que eu o faça! E sabes que morrerá os dois. Estou dando uma chance. Mate o infeliz!
Fechei os olhos procurando uma saída à Gott. Aharon continuava de joelhos, choramingando, machucado e com olhos roxos de gazela ferida. A surra roubara-lhe dois dentes e a dignidade.
- Atire! Vamos, atire! Atire de uma vez! Seja homem, Caleb!
Gritei e pressionei os olhos, os dedos escaparam-me. Caí de joelhos também. O sangue quente de Aharon inundava-me os pés. O menino que ajudei a salvar caiu, assassinado pela arma que caía de minhas mãos. Eu o abracei e quis morrer também. Malditos alemães! Malditos! A minha única vontade era atirar na cabeça de Burkhard e logo em seguida desperdiçar a última bala em mim, um traidor, um assassino. Mas o demônio roubou o revólver de mim para que eu pudesse agonizar a morte do menino que salvou-me a alma, que fez-me sorrir por dez dias.
O corpo continua lá. Pedaços de cérebro são comidos pelos ratos famintos e ninguém arrisca a tirar meu menino daquela situação deplorável. Ele não merecia aquilo. Se ao menos ele tivesse morrido naquela maldita câmera de gás… Se ao menos eu não o tivesse achado…
E assim me despeço, com lágrimas nos olhos e coração espirrando sangue. Não tenho mais tempo para escrever. Escondam-se, por Deus! Escondam-se. O grito da morte soou novamente. Primeiro alarme.
- Hey, Hitler!
(Cinzentos)
1 month ago with 86 notes
“Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contato das minhas mãos lentas,
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um eleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Pareia que a morte vinha…
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal advinha.
É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
— Manuel bandeira, “O Silêncio”
“Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse a assistir a um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podia ficar ali a Polícia e mais ninguém. Levaram-me para o fundo da casa, onde os comentários sobre o facto eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai ainda com o revólver na mão e a minha mãe ensanguentada. “O doutor matou a Dona Clarisse! Porquê?” Ninguém sabia compreender. O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sisudo que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória. À tarde o criado leu para a gente da cozinha os jornais com os retratos grandes de minha mãe e de meu pai. Ouvi como se aquilo fosse uma história de Trancoso. Pareciam-me tão longe, já, os fatos da manhã, que aquela narrativa me interessava como se não fossem os meus pais os protagonistas. Mas logo que vi na página de um dos jornais a minha mãe, estendida, com os cabelos soltos e a boca aberta, caí num choro convulso. Levaram-me então para a praça que ficava perto de minha casa. Lá estavam outros meninos do meu tamanho e eu brinquei com eles a tarde toda. As criadas é que conversavam muito sobre o meu pai e a minha mãe, contando umas às outras coisas a que eu não prestava atenção, pois no que eu cuidava era nos meus brinquedos com os amigos. Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência da mãe. A casa vazia e o quarto dela fechado. Um soldado tomando conta de tudo. As criadas da vizinhança queriam vir conversar por ali. O soldado não consentia. Deitaram-me a dormir, sozinho. E o sono demorou a chegar. Fechava os olhos, mas faltava-me qualquer coisa. Pela minha cabeça passavam, às pressas e truncados, os sucessos do dia. Então começava a chorar baixinho para o travesseiro, um choro abafado, de quem tivesse medo de chorar. (…) —
José Lins do Rego - Trecho de “O Menino de Engenho”.